sexta-feira, junho 02, 2006, posted by Ricardo at 5:17 p.m.
São 3 horas e 50 minutos da manha, da última vez que me recordo do dia em que estava era sábado. Sinto a cabeça pesada, os meus membros atrapalham-se com as ordens que o meu cérebro lhes transmite, vejo tudo destorcido, sinto uma enorme tristeza enganada por uma alegria aparente que transpareço. Estou bêbado, já muito álcool corre pelas minhas veias, os pensamentos vêm e vão com uma rapidez tal que não consigo focalizar nada, sou distraído pelas mulheres que passam a meu redor, olho-lhes o corpo, aprecio as suas linhas, possuo seus corpos na minha imaginação. Quando se afastam esqueço-as tão rápido como o que pensava antes de as ver, porém cai sobre mim uma repentina preocupação. “Tenho que voltar para casa” penso para mim próprio, “estou farto desta merda”, olho para o relógio e parto em direcção ao Cais do Sodré, vou apanhar o autocarro, 206, direcção Odivelas, agora Sr. Roubado, fruto de uma concentração de terminais de redes de transportes públicos, recentemente construída naquele local.
Há anos que apanho sempre a mesma carreira, com o percurso inalterável à passagem dos anos, as mesmas demoras, as mesmas artimanhas de condução praticadas por céleres motoristas, as mesmas paragens, a mesma paisagem. Porém cada vez que apanho este transporte saio dele com uma nova história para recordar. Porrada, assédios, tentativas de assalto e agressão, manobras perigosas, velocidade excessiva, jovens apaixonados, uma namorada a levar uma chapada do “seu” homem, novos, velhos, trabalhadores, pessoas completamente diferentes entre si, cruzam-se no meio olhar, na maior parte das vezes destorcido. Porém o mais importante são os pensamentos que me ocorrem nas centenas de viagens que já perfiz, aquando o retorno sozinho a casa. Assola-me na maioria das vezes o sentimento de solidão, estou rodeado de pessoas, amigos de quem me despedi há poucos minutos, porém sinto um enorme vazio dentro de mim. Falta-me alguém, alguém que me acompanhe, não naquela viagem, mas na viagem, aquela que faço desde meados de 1983.
Questões, respostas, ideias, metas, aspirações, marcadas no alcatrão e no cimento que rodeia o caminho percorrido pelas incansáveis rodas do autocarro, fustigadas também elas por obstáculos, que teimam em cruzar-se no seu caminho. Olho para um sinal, marcado pelo brilho vermelho que emana da combinação de uma lâmpada transparente em incandescência e um vidro defeituosamente pintado de vermelho, e vem-me tudo à cabeça menos o seu simples significado social de parar, turbilham dentro de mim raciocínios muitas vezes contraditórios que numas vezes me fazem olhar em frente, à espera de um dia melhor, de um volte de face, de uma resposta, noutras vezes apetece-me desistir. Nesse momento, alguns já passados, deixo cair algumas lágrimas pelo rosto, deixo-me levar pelo sentimento, seja lá o que isso for, e naquele momento sinto-me pequeno demais para aquele banco, o bocado de espaço que apropriei torna-se desconfortável, transforma-se num lugar de julgamento e decisão em que eu sou réu, testemunha e magistrado das minhas acções e pensamentos.De volta ao que me envolve, o autocarro suspende o seu movimento, olho em meu redor, e parece-me familiar aquilo que observo, cheguei por fim à última paragem, está na hora de abandonar o meu lugar, abandonar as ideias que me acompanharam naquela viagem, esqueço tudo, talvez por cobardia, talvez por desleixo, espero pela próxima viagem madrugadora para equacionar de novo aquilo que há muito me assola e amedronta, entro dentro do carro, “dou” à chave e parto, para um caminho que um dia marcará o meu fim.
 
4 Comments:


At 11:08 p.m., Blogger Unknown

à semelhança de ti, quando regresso a casa depois de uma noite libertina de copos também sou assaltado por pensamentos como os que descreves no texto. a noite tem muitas histórias para contar e nós somos as personagens principais.

 

At 12:00 a.m., Blogger Miguel Fino

Cinco estrelas. De volta às contradições nocturnas =)

 

At 11:17 a.m., Blogger Sanguine

As nossas noites são nossas...só nossas!!Só nós sabemos o que acontece...temos mil e uma histórias...aliás numa noitada em que tejamos tds presentes, td pode acontecer...mas mm td!!
Na maioria "das nossas noitadas" o alcool tb se apodera de mim e vai buscar sentimentos, lembranças e emoções que ha muito estavam guardadas bem la no fundo.

 

At 9:46 p.m., Blogger Diogo Ribeiro

Apesar de não ser dos mais velhos do curso como tds aqueles que já aqui comentaram...considero-me também um rapaz de noitadas e tantas ja partilhamos este ano...memórias e recordações de grandes momentos nao faltam uns mais bizarros que outros...obrigado pelo melhor ano de caloiro possivel