Há anos que apanho sempre a mesma carreira, com o percurso inalterável à passagem dos anos, as mesmas demoras, as mesmas artimanhas de condução praticadas por céleres motoristas, as mesmas paragens, a mesma paisagem. Porém cada vez que apanho este transporte saio dele com uma nova história para recordar. Porrada, assédios, tentativas de assalto e agressão, manobras perigosas, velocidade excessiva, jovens apaixonados, uma namorada a levar uma chapada do “seu” homem, novos, velhos, trabalhadores, pessoas completamente diferentes entre si, cruzam-se no meio olhar, na maior parte das vezes destorcido. Porém o mais importante são os pensamentos que me ocorrem nas centenas de viagens que já perfiz, aquando o retorno sozinho a casa. Assola-me na maioria das vezes o sentimento de solidão, estou rodeado de pessoas, amigos de quem me despedi há poucos minutos, porém sinto um enorme vazio dentro de mim. Falta-me alguém, alguém que me acompanhe, não naquela viagem, mas na viagem, aquela que faço desde meados de 1983.
Questões, respostas, ideias, metas, aspirações, marcadas no alcatrão e no cimento que rodeia o caminho percorrido pelas incansáveis rodas do autocarro, fustigadas também elas por obstáculos, que teimam em cruzar-se no seu caminho. Olho para um sinal, marcado pelo brilho vermelho que emana da combinação de uma lâmpada transparente em incandescência e um vidro defeituosamente pintado de vermelho, e vem-me tudo à cabeça menos o seu simples significado social de parar, turbilham dentro de mim raciocínios muitas vezes contraditórios que numas vezes me fazem olhar em frente, à espera de um dia melhor, de um volte de face, de uma resposta, noutras vezes apetece-me desistir. Nesse momento, alguns já passados, deixo cair algumas lágrimas pelo rosto, deixo-me levar pelo sentimento, seja lá o que isso for, e naquele momento sinto-me pequeno demais para aquele banco, o bocado de espaço que apropriei torna-se desconfortável, transforma-se num lugar de julgamento e decisão em que eu sou réu, testemunha e magistrado das minhas acções e pensamentos.De volta ao que me envolve, o autocarro suspende o seu movimento, olho em meu redor, e parece-me familiar aquilo que observo, cheguei por fim à última paragem, está na hora de abandonar o meu lugar, abandonar as ideias que me acompanharam naquela viagem, esqueço tudo, talvez por cobardia, talvez por desleixo, espero pela próxima viagem madrugadora para equacionar de novo aquilo que há muito me assola e amedronta, entro dentro do carro, “dou” à chave e parto, para um caminho que um dia marcará o meu fim.

