Despertar atribulado uma hora antes do despertador soar, apesar de ser noite serrada o sono tende a ausentar-se. Rotina habitual, as manhãs em casa são sempre iguais entre si, ao primeiro rodar da chave do carro, soam as primeiras noticias, olho a volta, o sol ainda não despertou, entranho aquele ambiente, há muito que não o vivia. Trezentos quilómetros mais, de alcatrão, linhas brancas e algumas paragens para esticar as pernas, enganar o sono que teima a acentuar-se sempre que o sol espreita por entre “blocos” de nevoeiro que resistem nas zonas mais baixas. Parecem barreiras, tal a rapidez e concentração com que aparecem, deixo de alcançar com a vista, fico limitado, mas não me preocupo. Na chegada à cidade invicta estou rodeado por mais uma porção de um nevoeiro espesso, mas desta vez ele prolonga-se, o sol deixou de espreitar, a ansiedade aparece, aquilo que me envolve parece demasiado sombrio, a chuva começa a bater no carro, o coração acelera, acalmo-me, pressinto algo mas não há-de ser nada. Chegado a meu destino materializo as minhas tarefas, na interacção forçada com os outros sinto o seu desdém, riem-se entre si quando falam do nível de instrução, dizem-se em vós alta “licenciados”, não passam de primitivos com pouca escolaridade e muita instrução de tasca, sinto a sua inveja a olhar para mim, no fundo desejavam estar ali no meu lugar, em pé perante muitos sem contudo vacilar. Almoço formal em mesa de penacho, regras imperam neste repasto, só me sento quando todos estão presentes, protagonizo os meus actos em consonância com o ritmo dos demais, sou avisado aquando a sobremesa, não posso fazer esperar quem se quer levantar, despacho-me, como o ultimo pedaço com a casca, levantando-se todos de seguida. Boa conversa após almoço, dicas de liderança, o ténue equilíbrio entre o comando e ordens e a democracia aparece como tema principal.
Viagem até a cidade dos arcebispos, pensamentos flúem tal como o alcatrão debaixo da borracha quente dos meus pneus, sinto-me sozinho, quero voltar para casa, mas não posso, não posso começar já a fraquejar, tenho que ser forte, ultrapassar momentos, aproveitar a experiência. Aquando a chegada vejo a linha de comboio, lembro-me dum momento que passei, no qual transportei no meu carro, na altura desconhecidos, Miguel, João e Carina, hoje em dia, após muitos trilhos percorridos, todos eles me marcaram, de diferentes formas tenho que o afirmar. Irmandade, surpresa e desilusão respectivamente.
Visito o pólo universitário do minho, procuro o departamento de sociologia, pergunto a alguns onde o posso encontrar, sou encaminhado a uns edifícios que se erguem numa colina que se estende num espaço escolar imenso, milhares de passos são necessários para atravessar aquilo que percorri, encontro finalmente o dito departamento, procuro o núcleo de estudantes, encontro um membro, rapariga que me faz lembrar uma que conheço e quem tenho grande carinho, têm um aspecto visível muito similar, algo básico mas preponderante. Trocamos ideias, tento obter variadas informações, despeço-me, vou lanchar, procuro um bar, encontro um espaço agradável o qual já conhecia na minha ténue passagem anterior por esse complexo.
Jantar calmo, estilo self-service, casa, dormir.

