quinta-feira, junho 22, 2006, posted by Ricardo at 10:35 p.m.
Cansaço, cansamento, s. m., canseira, s. f. Fadiga excessiva.”

O cansaço apodera-se de mim, o cérebro tende a perder a sua força. Sinto-me fatigado mentalmente. As preocupações, o trabalho e o raciocínio constante teimam em acabar com as últimas gotas de “combustível cerebral”. O físico mantém-se de feição, porém as ideias e as palavras tende a sair confusas, desvanecidas e trocadas. Sinto a cabeça a latejar, parece-me inchada dentro da cavidade cerebral, não a consigo descansar, há sempre algo que me preocupa e não me deixa relaxar. Porém não posso parar, comprometi-me para com um objectivo, um objectivo de “equipe”, a formação com quem tenho partilhado muito da minha vivência nos últimos tempos. Muitos são os bons momentos passados, porém a meta temporal traçada por nós parece caducar as mentes que lá andam, estamos confusos, por vezes não sabemos o que compomos e o que vamos concluir. Apetece-me descansar, só pedia 2 ou 3 dias fora daqui, porém não será agora que o vou fazer. Apetece-me desistir, mas não o vou fazer, por mim e por vós.

Desinteresse, s. m. Desapego, Abnegação”

O desinteresse voltou a imperar na minha mente. Perdeu-se o efeito de novidade, as esperanças desvanecem, os olhares não se cruzam, os sorrisos desapareceram, as suposições esfumam-se com o tempo. Tudo isto me parece repetitivo, já o faço há muito tempo, e por muitas vezes. Acaba sempre do mesmo modo, começo a fraquejar. Teima em não mudar, não sei o que fazer. O desinteresse apodera-se de mim. E está em mim quando me olham, e pensam em me “escolher”. Perco as forças, não consigo lutar mais…já lá vai muito tempo…já não consigo afigurar.
 
domingo, junho 11, 2006, posted by Ricardo at 10:31 p.m.
A música toca longínqua, ao fundo ouvem-se gritos de mais uns embriagados que aproveitam estes últimos dias de férias para beberem até caírem redondos no meio do chão. Tudo parece-me distante, com ela a meu lado tudo o resto não é importante, deixei de ser um ser social, faço tudo por respirar o mesmo ar que ela respira, estar a seu lado anula todas as minhas necessidades e desejos. Perco a razão. Deixo pura e simplesmente de raciocinar sobre as minhas acções, ajo segundo instintos, alimentado da ilusão de estar a seu lado e do bem-estar aparente por que sou invadido. Aquilo que unicamente tenho vontade é de poder cheirar os seus cabelos, beijá-la pela noite fora, adormecer a seu lado, senti-la junto a mim.
Contemplo seus olhos azuis, uma sensação de plenitude arrepia-me o corpo todo, o seu olhar profundo, azul como a cor do céu num dia de verão, atinge-me com tal fulgor que parece que deixo de respirar, sinto-me tão bem a seu lado, a olhar para ela e a sentir-me visto, que me esqueço até de respirar. Deixo de sentir o meu coração, sinto apenas o pulsar do vento a tocar na minha face quando a aproximo dela para a beijar. Os seus lábios doces e macios, os seus beijos carinhosos iludem e atrofiam meus sentidos.
Num ímpeto sou invadido por um rápido pensamento. Será que voltei a raciocinar???? Pergunto para mim próprio. Pelo meu corpo passa agora uma estranha sensação de desespero, tento-me imaginar-me sem ela, vai acabar por ter de se ir embora e tenho medo de ficar outra vez sozinho. Tenho a ideia que não a vou voltar a ver, porém acalmo, tento tirar de mim tão incómoda sensação e sentimento, tento então aproveitar todos os momentos que passo junto a ela…

Reedição, porque há momentos e palavras que se repetem em diversas doses…
 
sexta-feira, junho 02, 2006, posted by Ricardo at 5:17 p.m.
São 3 horas e 50 minutos da manha, da última vez que me recordo do dia em que estava era sábado. Sinto a cabeça pesada, os meus membros atrapalham-se com as ordens que o meu cérebro lhes transmite, vejo tudo destorcido, sinto uma enorme tristeza enganada por uma alegria aparente que transpareço. Estou bêbado, já muito álcool corre pelas minhas veias, os pensamentos vêm e vão com uma rapidez tal que não consigo focalizar nada, sou distraído pelas mulheres que passam a meu redor, olho-lhes o corpo, aprecio as suas linhas, possuo seus corpos na minha imaginação. Quando se afastam esqueço-as tão rápido como o que pensava antes de as ver, porém cai sobre mim uma repentina preocupação. “Tenho que voltar para casa” penso para mim próprio, “estou farto desta merda”, olho para o relógio e parto em direcção ao Cais do Sodré, vou apanhar o autocarro, 206, direcção Odivelas, agora Sr. Roubado, fruto de uma concentração de terminais de redes de transportes públicos, recentemente construída naquele local.
Há anos que apanho sempre a mesma carreira, com o percurso inalterável à passagem dos anos, as mesmas demoras, as mesmas artimanhas de condução praticadas por céleres motoristas, as mesmas paragens, a mesma paisagem. Porém cada vez que apanho este transporte saio dele com uma nova história para recordar. Porrada, assédios, tentativas de assalto e agressão, manobras perigosas, velocidade excessiva, jovens apaixonados, uma namorada a levar uma chapada do “seu” homem, novos, velhos, trabalhadores, pessoas completamente diferentes entre si, cruzam-se no meio olhar, na maior parte das vezes destorcido. Porém o mais importante são os pensamentos que me ocorrem nas centenas de viagens que já perfiz, aquando o retorno sozinho a casa. Assola-me na maioria das vezes o sentimento de solidão, estou rodeado de pessoas, amigos de quem me despedi há poucos minutos, porém sinto um enorme vazio dentro de mim. Falta-me alguém, alguém que me acompanhe, não naquela viagem, mas na viagem, aquela que faço desde meados de 1983.
Questões, respostas, ideias, metas, aspirações, marcadas no alcatrão e no cimento que rodeia o caminho percorrido pelas incansáveis rodas do autocarro, fustigadas também elas por obstáculos, que teimam em cruzar-se no seu caminho. Olho para um sinal, marcado pelo brilho vermelho que emana da combinação de uma lâmpada transparente em incandescência e um vidro defeituosamente pintado de vermelho, e vem-me tudo à cabeça menos o seu simples significado social de parar, turbilham dentro de mim raciocínios muitas vezes contraditórios que numas vezes me fazem olhar em frente, à espera de um dia melhor, de um volte de face, de uma resposta, noutras vezes apetece-me desistir. Nesse momento, alguns já passados, deixo cair algumas lágrimas pelo rosto, deixo-me levar pelo sentimento, seja lá o que isso for, e naquele momento sinto-me pequeno demais para aquele banco, o bocado de espaço que apropriei torna-se desconfortável, transforma-se num lugar de julgamento e decisão em que eu sou réu, testemunha e magistrado das minhas acções e pensamentos.De volta ao que me envolve, o autocarro suspende o seu movimento, olho em meu redor, e parece-me familiar aquilo que observo, cheguei por fim à última paragem, está na hora de abandonar o meu lugar, abandonar as ideias que me acompanharam naquela viagem, esqueço tudo, talvez por cobardia, talvez por desleixo, espero pela próxima viagem madrugadora para equacionar de novo aquilo que há muito me assola e amedronta, entro dentro do carro, “dou” à chave e parto, para um caminho que um dia marcará o meu fim.
 
, posted by Ricardo at 5:04 p.m.
Não sou grande escritor, não gosto muito de ler, não pertenço à comunidade de indivíduos que gostam do mundo da sapiência proveniente das grandes obras literárias, porém admiro-os pelo seu prazer enquanto desfolham as folhas dos livros que lêem. Acredito que só lendo bastante, se pode igualmente escrever algo que não sejam somente um conjunto de palavras que formam frases, parágrafos, folhas.
Admito que aquilo que escrevo não seja mais do que isso, porém apeteceu-me rabiscar algumas coisas que me vagueiam pela mente, pelo que reedito hoje “O Meu Covil” para compartilhar histórias mais reais que fictícias, a quem as quiser ler, apreciar ou comentar.