quarta-feira, novembro 29, 2006, posted by Ricardo at 8:30 p.m.
O despertador toca, as mantas que me aquecem confortam o meu corpo, não me levanto, por instantes fico a deleitar-me com o quente que o meu corpo se encontra enrolado, combatendo o ar frio que permanece no quarto onde pernoitei. Por fim a responsabilidade torna-se mais forte, momentos de introspecção são interrompidos por imposições profissionais que me fazem dirigir até à cidade costeira que têm uma ponte de nome Eiffel mas cuja circulação se encontra cortada. Tão bela que é, uma amalgama de ferro cruzado em ângulos simétricos que se espalham entre as margens do rio. Rumo ao centro da cidade, aspectos comuns, a maioria dos pontos a que me tenho de deslocar situam-se próximo dos chamados centros históricos das cidades que visito, outro aspecto, o empedrado reina no lugar do alcatrão, milhares de pequenas pedras de calçada, colocadas individualmente por certeza, por mãos experientes, constituem trilhos únicos a percorrer. Cidade pacata, vêm me à cabeça, os primeiros contactos revelam isso mesmo, gente calma e afável, disposta a colaborar. Após as minhas tarefas deambulo, a pé e sozinho por entre as principais ruas daquele aglomerado, já visível, o porto marítimo cativa a minha atenção e rumo, estas construções sempre me fascinaram, pequenos barcos, navios e até um cruzeiro encontram-se atracados, encostados a mais um pedaço de cimento, parecem-me tristes ali, o quão se eles pudessem e tivessem esse direito, poder desatracar e atravessar mares, deambulando na ondulação que por certo fora deste abrigo os havia de esperar.
A meio da tarde o trabalho ali está concluído, dirijo-me a um local que me chamou a atenção, um monumento que se encontra no topo de uma colina, a qual verifiquei que detinha dois miradouros. Sou um amante deste tipo de locais, adoro a beleza que transparece de uma visão aérea e ampla de um qualquer local aprazível à vista. Percorro uma estrada sinuosa, as curvas enrolam-se mais à medida que subo, a visão é magnífica, paro, aprecio a vista, o mar desperta a minha atenção, a paisagem é maravilhosa, o mar que espuma junto à costa, limita a construção e disposição dos edifícios térreos, nada de grandes construções, ao lado de uma planície cheia de verde, que belo, nunca antes tinha visto, pelo que me recordo, tanto verde mesmo junto ao mar. Adoro o mar, principalmente no Inverno quando não existe ninguém dentro dele a banhar-se, dirijo-me até à costa, praia do norte indicam as placas, chegado lá sou invadido por um bem-estar único nestes dias, liberdade, irrequietude, perigo transparecem de um mar revolto. Sinto isto também dentro de mim, o som constante e característico das ondas a bater, melodia infindável que desgasta aquilo com que se cruza, tem em mim efeito contrário. Rejuvenescido, tal seu poder, parto de novo à conquista da estrada, cidade dos arcebispos é de novo meu destino, lá descanso e preparo novo dia, em residência bondosamente cedida para meu uso pessoal. O caminho a fim de experimentar novas vistas e fugir à regularidade das auto-estradas, torna-se escuro e difícil de cruzar, a chuva teima em cair desfocando a minha visão, as nuvens ajudam ao rápido escurecimento do céu, a vegetação adensa-se, como que enrolando estrada e veículos que lá passam, é assustador, mas não me perturba. Tasco característico de nome “Penalty”, bola meio vazia, meio cheia em cima da televisão, indivíduos peculiares, copos de tinto existem e perecem rapidamente, eu acompanhado duma imperial vejo o S.L.B. marcar três golos, já existe cumplicidade entre os que se encontram no estabelecimento, comentam-se futilidades. Jantar, casa, dormir.
 
domingo, novembro 26, 2006, posted by Ricardo at 7:25 p.m.
Despertar atribulado uma hora antes do despertador soar, apesar de ser noite serrada o sono tende a ausentar-se. Rotina habitual, as manhãs em casa são sempre iguais entre si, ao primeiro rodar da chave do carro, soam as primeiras noticias, olho a volta, o sol ainda não despertou, entranho aquele ambiente, há muito que não o vivia. Trezentos quilómetros mais, de alcatrão, linhas brancas e algumas paragens para esticar as pernas, enganar o sono que teima a acentuar-se sempre que o sol espreita por entre “blocos” de nevoeiro que resistem nas zonas mais baixas. Parecem barreiras, tal a rapidez e concentração com que aparecem, deixo de alcançar com a vista, fico limitado, mas não me preocupo. Na chegada à cidade invicta estou rodeado por mais uma porção de um nevoeiro espesso, mas desta vez ele prolonga-se, o sol deixou de espreitar, a ansiedade aparece, aquilo que me envolve parece demasiado sombrio, a chuva começa a bater no carro, o coração acelera, acalmo-me, pressinto algo mas não há-de ser nada. Chegado a meu destino materializo as minhas tarefas, na interacção forçada com os outros sinto o seu desdém, riem-se entre si quando falam do nível de instrução, dizem-se em vós alta “licenciados”, não passam de primitivos com pouca escolaridade e muita instrução de tasca, sinto a sua inveja a olhar para mim, no fundo desejavam estar ali no meu lugar, em pé perante muitos sem contudo vacilar. Almoço formal em mesa de penacho, regras imperam neste repasto, só me sento quando todos estão presentes, protagonizo os meus actos em consonância com o ritmo dos demais, sou avisado aquando a sobremesa, não posso fazer esperar quem se quer levantar, despacho-me, como o ultimo pedaço com a casca, levantando-se todos de seguida. Boa conversa após almoço, dicas de liderança, o ténue equilíbrio entre o comando e ordens e a democracia aparece como tema principal.
Viagem até a cidade dos arcebispos, pensamentos flúem tal como o alcatrão debaixo da borracha quente dos meus pneus, sinto-me sozinho, quero voltar para casa, mas não posso, não posso começar já a fraquejar, tenho que ser forte, ultrapassar momentos, aproveitar a experiência. Aquando a chegada vejo a linha de comboio, lembro-me dum momento que passei, no qual transportei no meu carro, na altura desconhecidos, Miguel, João e Carina, hoje em dia, após muitos trilhos percorridos, todos eles me marcaram, de diferentes formas tenho que o afirmar. Irmandade, surpresa e desilusão respectivamente.
Visito o pólo universitário do minho, procuro o departamento de sociologia, pergunto a alguns onde o posso encontrar, sou encaminhado a uns edifícios que se erguem numa colina que se estende num espaço escolar imenso, milhares de passos são necessários para atravessar aquilo que percorri, encontro finalmente o dito departamento, procuro o núcleo de estudantes, encontro um membro, rapariga que me faz lembrar uma que conheço e quem tenho grande carinho, têm um aspecto visível muito similar, algo básico mas preponderante. Trocamos ideias, tento obter variadas informações, despeço-me, vou lanchar, procuro um bar, encontro um espaço agradável o qual já conhecia na minha ténue passagem anterior por esse complexo.
Jantar calmo, estilo self-service, casa, dormir.
 
, posted by Ricardo at 7:07 p.m.
Nas últimas quatro semanas tive o prazer de cruzar o país inteiro, percorri os 18 distritos continentais, viajando milhares de quilometros, relacionando-me com centenas de pessoas diferentes entre si. Foi uma experiência única, das mais enriquecedoras que passei. Interagir todos os dias com uma realidade e uma envolvência diferente pode ser duro psicológicamente, mas aquilo que aprendi e interiorizei nesta minha viagem valeu tudo mais.
Percorri sozinho trilhos desconhecidos, o tempo que deste modo vi correr, fez-me pensar muito, revi quase que a minha vida toda, questionei a actual vezes sem conta, fiz promessas, defini objectivos, sonhei mais um bocado, escrevi algumas coisas. Tentei criar uma espécie de diário, actualizado nas noites sós que passei, com medo de no futuro estas recordações se me apagarem da memória materializei algumas ideias e factos que se passaram, alguns deles divulgarei aqui neste meu antro pessoal.